A vida não é assim tão simples
A mim faz impressão a alegria demonstrada por muitas pessoas a propósito do desfecho do assalto à dependência do BES: os reféns salvaram-se, mas um dos raptores morreu e o outro ficou ferido com gravidade. Também há quem louve o GOE (Grupo de Operações Especiais) por uma actuação tão eficaz e perfeita que lembrou os filmes de Hollywood, filmes em que os SWAT são apenas heróis e os ladrões apenas bandidos - como se Hollywood e a sua visão ultra-simplificada da realidade fossem um modelo a seguir.
Também me parece que os portugueses que comentam as notícias revelam ser grandes conhecedores em áreas sobre as quais nada conheciam há dois dias: agora todos se tornaram especialistas em tácticas policiais e psicologia criminal, revelando que em cada um de nós existe sempre um Moita Flores à espreita da oportunidade de se revelar: os defensores da actuação do GOE dizem que os polícias foram perfeitos, o segundo tiro do sniper foi de génio; a minoria que não gostou da intervenção policial garante que os raptores, mais tarde ou mais cedo, iriam entregar-se às autoridades. A sério? Uau. As coisas que nós sabemos e nunca suspeitámos.
Essas são questões que não me sinto qualificado para responder. Não sou capaz de dizer se a polícia agiu mal ou bem, eu não estava lá, não sei, ninguém sabe como decorreram as negociações, o que eles disseram e o que os negociadores responderam, ninguém de fora pode afirmar com certeza absoluta o que os raptores iriam fazer a seguir baseando-se apenas em imagens captadas de longe por um telemóvel.
A questão que me importa mais é a forma como vemos e reagimos a este tipo de história. Parece que se torna mais fácil ficarmos alegres por um desfecho sangrento, mas feliz, se nessa história estiverem estereótipos que possamos assimilar com facilidade. De um lado, dois criminosos raptores; no meio, encurralados, dois reféns inocentes; do outro, polícias no cumprimento do dever. Quem me dera ver as coisas de uma forma tão simples: estaria contente pela libertação dos reféns, orgulhoso pela actuação da polícia, indiferente à morte dos maus da fita - tal como num filme de Hollywood.
Na vida real, contudo, estamos sempre a falar de pessoas. O tipo que sobreviveu, por exemplo, tem 23 anos, chama-se Wellington Nazaré, é natural de Minas Gerais e estava em Portugal há vários meses a trabalhar na construção civil sem autorização de residência. Durante o assalto, Wellington entrou em contacto com o primo Rodrigo Nazaré pedindo-lhe para telefonar à mãe no Brasil e dizer-lhe que «estava a trabalhar muito e que se encontrava bem». Nesse telefonema, desesperado, confessou que preferia morrer a entregar-se: «Eu suicido, eu suicido». Sobre o outro que morreu, Nilson Sousa, pouco se sabe além do nome e do facto de ser também clandestino e morar perto de Wellington. (Fonte: Expresso)
Já sei que alguns vão acusar-me de estar a desculpar estes dois brasileiros. É óbvio que não estou. Tentaram roubar, fizeram ameaças, provocaram traumas, podiam de facto ter morto outras pessoas.
Bem sei que somos os únicos responsáveis pelas nossas escolhas e que há muitas pessoas com dificuldades na vida que não pensam em assaltar um banco e fazer reféns; mas não consigo condenar com tanta facilidade um ser humano partindo apenas da ideia de que o mundo está dividido entre crianças que querem ser astronautas e as outras que querem ser más quando forem crescidas.
Arrumando de vez o ‘importante’ assunto Batman
As provocações nem sempre têm como objectivo ofender as outras
pessoas, mas fazê-las pensar por que razão se sentem ofendidas e se é
mesmo caso para se sentirem ofendidas.
Pensei que isto fosse óbvio,
mas estava enganado. Nunca se deve subestimar a capacidade que as
pessoas têm de se recusar a pensar, sobretudo na Internet. À mínima
oportunidade, deixam de o fazer e portam-se como idiotas. E não é tão
complicado como isso levar algumas pessoas a deixar de pensar: basta
gozar com assuntos tão importantes como um blockbuster
de Hollywood ou um personagem de BD. Ao insistir nas provocações do
Batman, o meu objectivo era expor o ridículo de quem se sente provocado
por um assunto destes. Felizmente, a grande maioria dos frequentadores
do Bitaites é adulta.
E aviso já todos os fanáticos, os fanáticos a sério e os fanáticos de peluche: aqui nunca se sentirão à vontade. Quanto mais a minha liberdade de expressão vos incomodar, mais eu vos fodo o juízo. Sou um filho do 25 de Abril, crianças. O 25 de Abril foi um dia em que muitos Batmans saíram à rua em nome da Liberdade e da Justiça. Alguns estão caquécticos, outros morreram, a maioria nem os nomes ficarão na História. Quase todos esses anónimos foram uns heróis - não por usarem capa ou terem super-poderes, mas porque souberam lutar pelas suas convicções usando apenas o poder da sua integridade e coragem. Se a Liberdade e a Justiça que temos não são as que eles idealizaram, cabe-nos agora a responsabilidade de sermos dignos dessa herança e assumir o nosso papel - nem que seja através de um simples blogue. Portanto, criancinhas cegas adoradoras do Batman: assunto encerrado. Tenho outros valores para adorar, outros assuntos em que pensar. Ponham-se na alheta.
Da Natureza do Fanatismo
Da Natureza do Fanatismo
é um texto que resultou de uma conferência dada pelo escritor israelita
Amoz Oz a 23 de Janeiro de 2003. O escritor e activista político
sul-africano Nadine Gordimer, Prémio Nobel da Literatura, descreveu a
escrita de Amoz Oz como «a voz da sanidade que sobressai no meio da confusão.»
Amoz Oz prescindiu dos direitos de autor sobre este texto por
considerar mais importante passar a mensagem do que ganhar dinheiro,
pelo que qualquer um o pode divulgar ou distribuir, desde que não o
faça com objectivos comerciais. Como estou de férias e não tenho tanto
tempo para actualizar o blogue, reedito aqui este magnífico texto.
Talvez alguns de vocês o queiram imprimir para ler durante as férias…
Garanto-vos, é uma leitura bastante interessante. O post está dividido
em várias páginas, pois é muito extenso.
Como curar um fanático? Perseguir um punhado de fanáticos através das montanhas do Afeganistão é uma coisa. Lutar contra o fanatismo, outra muito diferente. Receio não saber muito bem como perseguir fanáticos pelas montanhas, mas talvez possa apresentar uma ou duas reflexões acerca da natureza do fanatismo e sobre as formas, se não de curá-lo, pelo menos de controlá-lo.
A chave do ataque de 11 de Setembro contra os Estados Unidos não deve ser apenas procurada no confronto existente entre pobres e ricos. Esse confronto constitui um dos mais terríveis problemas do mundo, mas estaríamos errados se concluíssemos que o 11 de Setembro se limitou a ser um ataque de pobres contra ricos. Não se trata apenas de «ter ou não ter». Se fosse assim tão simples, deveríamos esperar que o ataque viesse de África, onde estão os países mais pobres, e que talvez fosse lançado contra a Arábia Saudita e os emirados do Golfo, que são os estados produtores de petróleo e os países mais ricos. Não. É uma batalha entre fanáticos que crêem que o fim, qualquer fim, justifica os meios, e os restantes de nós, para quem a vida é um fim, não um meio.
Boa,rui cruz
Não quero parecer paternalista, condescendente ou juiz do que deve ser ou não um bom blogue, atenção, muito longe disso, mas depois de malhar tantas vezes no Rui Cruz é da mais elementar justiça reconhecer também que nos últimos tempos ele cresceu como blogger.
O blogue melhorou a olhos vistos, sobretudo nos temas que escolhe, além de estar neste momento a lutar por uma causa perdida mas que é importante para mim, pois também sou pai. A luta contra a porcaria ignóbil do Vazou na Net pode ser interpretada como uma forma de sacar tráfego, mas eu acredito na sinceridade do que ele tem escrito sobre o assunto. Parabéns, Rui. Como tantas vezes te disse, um link não se pede, conquista-se.
Fazendo bom uso das imagens num blogue
Muitas vezes me têm perguntado onde arranjo eu as imagens que coloco no blogue. A resposta é simples: na Internet, como toda a gente.
A questão mais importante no uso de imagens num blogue não é tanto onde encontrar as imagens (embora seja importante ter uma boa lista de sites), mas o que fazer com as imagens depois de as encontrarmos. É este o assunto do post. Para muitos bloggers, sobretudo os que já andam nisto há muito mais tempo do que eu, são dicas básicas. Limito-me portanto partilhar a minha experiência e os meus truques para que eventuais interessados os transformem, melhorem, tornem seus e os partilhem também.
Resistir à tentação de publicar assim que a descobrimos - A imagem que descobriste pode ser engraçada e dar um post imediato, mas será ainda mais engraçada se a enquadrares num texto. Eu também faço muitos posts só com uma imagem caída do céu, mas procuro evitá-los. Há uma boa razão para contextualizar as imagens: como o que tu descobres na Web pode ser encontrado por toda a gente, uma boa forma de seres original é usando a imagem para subverter o sentido do post ou para dar ao teu visitante uma pista imediata sobre o que pretendes dizer e, mais importante, o tom em que o pretendes dizer.
É preferível guardá-la e esperar que a simples intuição ou o entendimento do que pretendes escrever te diga: «esta imagem aparentemente não tem nada a ver com o assunto, mas conjuga-se lindamente». Não interessa se é um contraponto sério, informativo, irónico ou sarcástico: desde que faça sentido para ti… é para usar sem hesitações. Imagina que vais escrever um post sobre a mentira ou a demagogia. Porque não usar esta imagem? Uma foto «batida» na net pode ganhar uma nova vida, graças a ti. Um blogger exímio a usar este truque é o Cardoso.
Como encontrar imagens? - Não vou fazer uma descrição exaustiva dos sites que frequento por uma razão simples: provavelmente são os mesmos que já conheces e depois porque dá mais gozo fazeres as tuas próprias descobertas. Em primeiro lugar, usa o StumbleUpon.
O StumbleUpon é um add-on que pode ser instalado no Firefox ou Internet Explorer. Em breve, uma versão final chegará também ao Opera. O StumbleUpon é uma rede social e uma base de dados de bookmarks construída por uma comunidade de milhões «exploradores» da Web.
Cada «stumbler» tem o seu próprio blogue onde pode colocar, se quiser, as suas descobertas. Sempre que alguém encontra um Website, artigo ou imagem interessante, vota favoravelmente (o voto negativo também é possível, mas não interessa neste caso). Quando carregamos no botão Stumble, somos dirigidos aos sites, artigos ou imagens mais votados pela comunidade - não é uma garantia imediata de qualidade, mas descobrem-se muitas coisas interessantes. Experimenta usar como palavras-chave high quality photos ou funny photos e verás os resultados. E isto é apenas um começo.
Outro método é brincar com o Google Image Search. Experimenta procurar por «123456789» na pesquisa de imagens. Explora bem os resultados, que deverão ser aos milhares. Aposto que vais encontrar uma imagem engraçada e totalmente inesperada. E, quando a encontrares, considera se não é preferível guardá-la e esperar que um post qualquer te faça lembrar a tal imagem que encontraste. Se isso acontecer, é quase certo que ficará bem no teu texto.
ORA BOLAS....
O meu portátil foi à vida. Deve ser um problema com a placa gráfica. Nestes modelos (Sony Vaio FE41S) a placa está soldada na board,
portanto não posso substituí-la. O ecrã mostra-me uma imagem a lembrar
o negativo da uma fotografia, quer esteja na BIOS ou no sistema
operativo. Já alguma vez vos aconteceu uma avaria destas?
Estou tramado. O portátil já está fora da garantia. Comprar outro está
fora de questão. Uso-o no trabalho, para evitar os computadores da
treta que eles lá têm e as restrições administrativas das workstations. Mal comecei as férias e já estou a pensar no stress acumulado que vai ser trabalhar naqueles PCs pré-históricos com pouca memória e Windows XP.
Os elementos químicos explicados em vídeo
Que tal um site onde cada elemento da tabela periódica fosse explicado em vídeo? A Universidade de Nottingham fez esse trabalho. Por cada símbolo que carregamos na tabela, é lançada uma janela com o respectivo vídeo onde professores e técnicos explicam e demonstram as características de cada elemento. Brilhante projecto. Link
Aos ‘fanboys’ do Batman que ainda me enviam emails
Queridos fanboys
do novo filme do Batman: quero agradecer-vos do fundo do meu céptico
coração todas as mensagens que me enviaram com inúmeros links para reviews positivas, tanto de bloggers
portugueses como de estrangeiros. Estou impressionado com a dedicação
ao filme e agradecido pela boa-educação com que discordaram comigo, mas
a minha opinião mantém-se igual: The Dark Knight tem todos os condimentos necessários para criar a batmania, mas está longe de ser um bom filme, quanto mais uma obra-prima.
Sei que é ofensivo criticar um filme que vocês tanto gostaram, mas não tenciono trocar a sinceridade pela diplomacia. Sempre que o fiz, fiquei a perder. Se quisesse ser diplomático e medisse as minhas palavras, este blogue, tal como o conheço, morreria sufocado no seu próprio vómito.
Não me deixo impressionar por críticas mais ou menos pomposas de especialistas em cinema que afirmam que o filme «nos deixa a pensar» mas não dizem em quê. Assim também eu.
Posso dizer-vos, já agora, que The Dark Knight também me deixou a pensar: «Estou à rasquinha para fazer chichi» foi o pensamento mais forte que me ocorreu depois de duas horas e meia enfiado no cinema.
Também é escusado apontarem-me sites e blogues onde a iconografia e linhagem do Batman é exaustivamente usada para «justificar» a qualidade do filme. Um bom filme, desculpem, não queria ofender-vos, uma obra-prima, não precisa de tantas justificações e salamaleques. Um bom filme basta-se a si próprio.
Agradeço que tenham a gentileza de me deixar escolher outras obras para adorar. Eu até dou a mão à palmatória quanto me demonstram que estou enganado, mas entre os meus e os vossos gostos, continuo a preferir os meus - não porque sejam os meus, mas porque sinceramente são melhores.
Pronto, agora não me aborreçam mais com emails e mensagens a falar na tia-avó do Batman que perdeu um olho enquanto visitava as Grutas da Alapraia e é por isso que aquela cena é tão importante, tás a ver? Tou sim, senhor. Obrigado por todos os esclarecimentos. Que os deuses das pipocas vos acompanhem. Que a Força esteja convosco, irmãos, o Merchandising está entre nós.
Férias. Finalmente.
Blog NiceGallery não é trabalho, é prazer; continuará a ser actualizado, embora mais lentamente…
Radiohead engolido, mastigado e deitado fora
A última vez na vida em que fiquei totalmente surpreendido e apanhado por uma música foi com os Radiohead e o tema Paranoid Android que ouvia na saudosa XFM. Embora musicalmente nunca tenham estado relacionados, ouvir Paranoid Android e depois o OK Computer era como regressar aos bons velhos tempos em que passava noites inteiras a ouvir o The Wall dos Pink Floyd sem me fartar, até decorar todas as letras e cantar o álbum de uma ponta à outra. Como aconteceu com Roger Waters, a voz de Thom Yorke arrepiava-me. Ainda me arrepia.
Portanto tudo o que tenha a ver com os Radiohead me interessa, incluindo versões alternativas feitas por outros músicos. O projecto que justifica este post - Me and This Army: Radiohead Remixed and Mashed Up by Panzah Zandahz - é radicalmente diferente de todos os outros que conheço. Para os que não gostam de electrónica e não se impressionam com as misturas dos DJs, é um projecto a esquecer rapidamente. Pior: de fugir.
Eu gosto de misturas e de abordagens diferentes a músicas que já conheço, mesmo que sejam electrónicas, mas parece-me um disco desigual e pouco entusiasmante: tanto oiço uma mistura engraçada como, logo a seguir, me aborreço com tantos loops e robôtretas. Nada como o sabor original, como é óbvio.
Mas… É possível que alguns de vocês gostem.
O projecto consiste em 16 canções engolidas, mastigadas e deitadas fora até à exaustão por Panzah Zandahz, o mentor, e uma trupe de grandes DJs como MF Doom, Jurassic 5 e De La Soul, entre outros. Deixo aqui o álbum para que os interessados o possam sacar. Faço-o porque o próprio Panzah Zandahz, numa mensagem enviada ao site BoingBoing (link) encorajou a sua livre distribuição pedindo, apenas, que fosse fornecido uma ligação para a sua editora, caso alguém quisesse comprar o CD online. O link pedido por Zandahz está aqui. O download do disco pode ser feito carregando aqui.
Ghaith Abdul-Ahad, o fotógrafo que escreve
Iraquiano morto na rua Haifa, em Bagdade. Ao fundo, veículo blindado americano em chamas
A 13 de Setembro de 2004, um helicóptero americano disparou tiros de metralhadora e lançou «rockets» contra uma multidão de civis na rua Haifa, em Bagdade, matando 13 pessoas e ferindo 60, incluindo crianças.
A rua Haifa estava a ferro e fogo nesse dia. Ao amanhecer, dois carros-bomba tinham explodido; morteiros disparados pelos guerrilheiros haviam atingido instalações do governo iraquiano; um oficial de segurança fora morto. Combates entre os resistentes e os americanos ocorreram quase de imediato. Um veículo de combate blindado Bradley foi mobilizado para a luta mas, três horas depois, estava em chamas, atingido por um terceiro carro armadilhado. Os quatro ocupantes do tanque escaparam, mas ficaram feridos.
Era o caos: dois bombistas-suicidas tinham sido apanhados quando tentavam furar o perímetro de segurança montado por americanos e polícias iraquianos; uma multidão de civis apedrejava o Bradley. Foi sobre estas pessoas - dançando triunfalmente à volta do veículo abandonado como índios - que o helicóptero abriu fogo.
Um comunicado do exército dos Estados Unidos, um dia depois, explicava o ataque como «uma tentativa de destruir um veículo militar americano abandonado e garantir a própria segurança das pessoas que se aproximavam» e «impedir que guerrilheiros se apoderassem de armas que ainda lá pudessem estar». Dado o resultado que deu esta tentativa de «proteger» os civis, uma segunda versão oficial da história garantia que a tripulação no helicóptero respondera «a tiros vindos das proximidades do veículo abandonado». As filmagens recolhidas por operadores de câmara no local, porém, não mostravam atiradores nenhuns, apenas gente desarmada a comemorar a destruição do Bradley; dezenas de testemunhas no local afirmavam que a tripulação atirara directamente para a multidão, incluindo pessoas que estavam bastante afastadas do veículo.
Havia outra testemunha: Ghaith Abdul-Ahad, 33 anos, fotógrafo iraquiano, um dos mais conhecidos e respeitados fotojornalistas do mundo. Abdul-Ahad não se limita a tirar fotografias, também escreve, e bem, enviando reportagens para jornais como o New York Times, Washington Post, Los Angeles Times, The Times e The Guardian. Foi como correspondente do The Guardian que Abdul-Ahad publicou (e ainda publica) os mais importantes relatos do ataque e ocupação do Iraque pelos americanos.
Naquela manhã, como sempre, estava na linha de fogo, entre a multidão em pânico. Ferido na cabeça pelos estilhaços das explosões, conseguiu refugiar-se com mais seis pessoas no interior de um pequeno quiosque.
A reportagem que escreveu para o The Guardian, à semelhança das fotos que tirou, é um eloquente testemunho dos horrores da guerra e dos dilemas morais que enfrenta um jornalista. O que se segue é um resumo da reportagem original traduzida por mim.
«Estávamos todos apertados dentro do quiosque, que não devia ter mais de dois metros de largura», escreveu Abdul-Ahad. «O sangue começou a pingar na minha câmara, mas só conseguia pensar em manter as lentes limpas».
Junto dele, um homem de 40 anos chorava. «Não estava ferido, mas não parava de chorar.» Abdul-Ahad estava com tanto medo que quase esmagou as costas contra o muro quando o helicóptero disparou em direcção ao quiosque onde estavam escondidos. «Desejei ser invisível, queria esconder-me debaixo dos outros».
Eventualmente o helicóptero afastou-se, dando tempo a que duas das pessoas fugissem em direcção a um edifício próximo. «Diante de mim estava um jovem, não devia ter mais de 20 anos». Usava umas botas de cabedal, fato de treino, estava sentado no chão, as pernas esticadas, um dos joelhos «curvado para fora» de uma forma pouco natural. Na sujidade do chão sob o seu corpo, o sangue escorria. «Ele olhava para a rua com os olhos muito abertos, como se estivesse à procura de alguma coisa, mas não dizia nada».

13 de Setembro de 2004: Abdul-Ahad testemunha alguns «danos colaterais» na rua Haifa
Na frágil segurança do quiosque, dois dos outros ocupantes descobriram que se conheciam. «Como é que estás», perguntou um deles enquanto tentava alcançar o bolso do telemóvel. «Não estou bem», respondeu palidamente o outro, um jovem com uma t-shirt azul. Mostrou o braço. Parecia ter levado uma dentada de um leão esfomeado: através da carne que faltava via-se já o osso. «Traga um carro e venha, por favor, estamos feridos», gritava o homem ao telemóvel. O homem do joelho rebentado emitia sons fracos que ninguém entendia. «Eu estava tão assustado que nem conseguia tocar-lhe. Dizia para mim próprio que ele não estava a gritar, por isso estava bem».
Decidiu ajudar o homem do telemóvel, que se descontrolara e não parava de gritar, o sangue a escorrer-lhe pela face. Abdul-Ahad rasgou-lhe a t-shirt, disse-lhe para a enrolar à volta da cabeça, mas sentiu-se incapaz de fazer mais qualquer outra coisa. «Tentei recordar o treino de primeiros-socorros que tivera no passado, mas a única coisa que conseguia fazer era tirar fotografias». O homem do joelho continuava a murmurar palavras incompreensíveis. Abdul-Ahad olhou para fora e viu três homens empilhados no meio da rua, ainda vivos mas cobertos de sangue, enquanto um jovem se mantinha estendido no chão, a poucos metros de distância. Todos precisavam de ajuda, mas nenhuma chegou; poucos minutos depois, estavam mortos. «Eu fotografava-os e, ao mesmo tempo, dizia para mim próprio: ‘eles estão a dormir e tu não vais acordá-los’». Crianças começaram a aparecer na rua, observando os cadáveres.
Nesse momento, recorda Abdul-Ahad, alguém rompeu o silêncio: «Um helicóptero!». O fotógrafo refugiou-se outra vez no interior do quiosque, ao mesmo tempo que duas fortes explosões se faziam ouvir na rua. «O tipo com o joelho estragado estava agora inconsciente. Algumas crianças que passavam disseram ‘Está morto’ e eu respondi ‘Não digam isso, ele ainda está vivo, não o assustem!’» Todos estavam já inconscientes: o homem do joelho rebentado, o tipo do telemóvel, o jovem da t-shirt azul com o braço semidesfeito.
«Eu saí de lá com as crianças. Deixámo-los lá para morrer. Nem sequer tentei levar um deles comigo, saí de lá de uma forma egoísta», escreve Abdul-Ahad. À medida que se afastava do quiosque, as pessoas pediam-lhe para não parar de fotografar: «Tire fotografias, mostre ao mundo o que é a Democracia americana».
Finalmente as ambulâncias começaram a chegar. Os iraquianos transportavam os seus feridos, mas nem todos tinham conseguido sobreviver: «Não, este está morto», dizia um condutor. «Traz-me outro». O fotógrafo conseguiu fugir apanhando boleia numa das ambulâncias.
Um dia depois, um colega fotógrafo estava a ver as imagens que Abdul-Ahad captara durante o massacre quando reparou: «Afinal o tal jornalista árabe que morreu ainda estava vivo quando lhe tiraste as fotos.» «Eu não vi nenhum jornalista árabe», respondeu Abdul-Ahad. «É este aqui, olha». Reconheceu o jovem de t-shirt azul a quem um leão esfomeado comera o braço. Ele, o tipo do joelho, o homem do telemóvel, todas as pessoas com quem partilhara o abrigo tinham morrido.
Casamentos
Enciclopédia do Desconhecimento Desnecessário
Cinquenta por cento dos ursos polares fêmeas têm um pénis. Charlie Chaplin entrou num concurso para «Melhor Sósia de Charlie Chaplin» e ficou em terceiro lugar. O coice de uma girafa adulta é tão poderoso que pode decapitar um leão. O tempo médio de duração do orgasmo num porco é de 30 minutos. Seriam necessários 1,2 milhões de mosquitos a morder em simultâneo um ser humano para sugar-lhe todo o sangue. 45 por cento dos americanos não sabem que o Sol é uma estrela. Existem mais de 318 mil milhões de combinações possíveis nas primeiras quatro jogadas do Xadrez. Interessante, não é? Bem-vindos ao site do conhecimento desnecessário.
Sindicação






















A vida não é assim tão simples

Uma Foto e uma Música



28/07/2010 @ 08:47:16
por resume writer
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26/07/2010 @ 18:46:38
por SilviaGUTHRIE32
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23/07/2010 @ 06:41:38
por Natalia32ONEIL